Domingo, Novembro 22, 2009

Atmosphere

Parte I: Love will tear us apart
Parte II: From safety to where...?
Parte III: A means to an end
Parte IV: These days
Final: Atmosphere


Porque final de temporada que se preze tem que terminar ao som de Kansas.


[The rise and fall of Luke Stardust and the Lizzie from Mars versão BONECAS! :D]

Quando se é criança, as coisas sempre parecem bem maiores do que realmente são. Um bom e clássico exemplo disso são os trampolins de piscinas. Primeiro, você olha as pessoas pulando lá de cima, do último trampolim até a água. Você sente um medo do caralho, mas ao mesmo tempo a curiosidade por saber qual a sensação de voar por alguns segundos corrói você por dentro, até que, num surto repentino de coragem e adrenalina, você sai correndo e decide subir todas as escadas até o último andar. A vertigem toma conta de você. Você vai caminhando cautelosamente até o final da prancha. Vê aquela água toda lá embaixo, toda aquela gente atrás de você esperando a vez, e repensa se aquela era realmente uma boa ideia. Mas você já está lá em cima, não tem mais como voltar atrás. Então você respira profundamente pela última vez.

E pula.

― You know, I'm okay with this.

Eu dizia. E eu realmente estava. A relação com a Rafaela estava perfeita até aquele momento. O problema é que começou a ficar perfeita DEMAIS.

― Luke, o que nós somos? ― ela disse. Eu sabia exatamente do que ela tava falando, mas...
― Não sei, o que... nós somos?
― É... a gente tá namorando?
― Não sei, a gente tá... namorando?
― Cê já me pediu em namoro?
― Hmmmmm, nããão. Maas é questão de tempo.

Rafaela gostava de mim. Muito mesmo. Então aí ela começou a gostar ainda mais. Mensagens no celular todos os dias, textos nos meus cadernos. Pela primeira vez na vida, namorar não parecia uma idéia tão apetitosa assim pra mim, e eu não estava me segurando pra pedi-la em namoro logo na primeira semana. Sabe aquele lance de "o problema não é você, sou eu"? Eu estava sendo mais uma vítima e prestes a fazer o meu papel no Ciclo de Gary-Jules.

E nessa época, por algum motivo, eu comecei a me reaproximar da Liz. Na escola, voltamos a ficar abraçados o tempo todo. No cursinho, Rafaela sentava de um lado meu e a Liz do outro, e eu sempre acabava dando mais atenção pra Liz, mesmo que sem querer. A nossa reaproximação mostrava que eu ainda não tinha superado o término, e que, puta merda, eu ainda gostava dela.

― Puta merda, eu ainda gosto dela ― eu disse, ao Odie. ― Viu como nós estávamos hoje de manhã? E viu o que ela escreveu no meu braço? "L (L) L"! O que tu acha que isso significa?
― Que ela ainda gosta de ti, brother.

No meu aniversário, a minha cabeça só ficou ainda mais confusa quando Rafaela me deu uma miniatura de chumbo do Luke Skywalker e Liz contra-atacou logo depois com uma miniatura do Homem-Aranha também de chumbo. E se colocasse os dois de frente, parecia que eles estavam prestes a chutar bunda um do outro - pra vocês verem só como eu estava ficando REALMENTE perturbado.

Eu estava com uma garota, mas ainda gostando da ex. Não achava isso justo com a Rafaela, então logo a decisão de terminar me veio à cabeça. Enquanto isso, Odie andava estranho naqueles dias. Parou de dizer "boa noite" pra qualquer rabo-de-saia que passavam na rua ou de me contar histórias de cocotas que tinha comido mais cedo naquele dia. Ele estava distante, e eu não fazia a menor ideia do por quê. Até que um dia, indo para o cursinho, encontro ele sentado no nosso canto ao lado da sorveteria, cigarro em mãos e um certo brilho nos olhos. Ele me chama, e nós conversamos.

― Não existe jeito fácil de falar isso, então eu vou falar logo. Tu sabe que é um dos meus melhores amigos, né? Mesmo eu te conhecendo há pouco tempo, já te considero pra caralho, e se eu tô falando isso é porque eu realmente tenho. Eu tô apaixonado pela Rafaela, cara.

Ok, por essa eu REALMENTE não esperava.

Era estranho, porque mesmo eu já tendo posto em mente a ideia de terminar com ela, aquilo não deixava de ser um tapa na cara. Não que fosse ruim, mas é que era realmente inesperado.

― Desculpa, cara, mas eu vou entrar. Me dá um tempo, ok? Amanhã eu falo contigo, ou depois, sei lá. É que agora eu realmente... eu realmente preciso digerir isso.

Deixei Odie e voltei para a sorveteria. É engraçado sair de um lugar com a atmosfera completamente pesada e entrar em outro com todo mundo se divertindo, você sempre acaba se sentindo um pouco deslocado. Depois de um tempo, Liz me chama para conversar lá fora.

― E aí? Como estás?
― Surpreso. Eu realmente não esperava por isso.
― É, eu sei.
― Cê acha que ele tá realmente gostando dela?
― Cara... é o Odie. Conheces ele, viste como ele estava esses dias. E ele disse que tava apaixonado. O Odie. Então é porque ele REALMENTE tá sentindo alguma coisa. Ele me disse que só tomou coragem mesmo pra te contar porque disseste que ia terminar com ela.
― É...
― Por que querias terminar?
― Tipo, ela gosta DEMAIS de mim. Bem mais do que eu gosto dela. Tá, eu gosto muito dela, mas não TANTO. Então eu acho melhor terminar, antes que acabe machucando ela ou sei lá.
― Ninguém termina com alguém porque gosta muito dessa pessoa. Sempre tem outro motivo.

Parei, e pensei. É, era agora.

― É, eu tenho outro motivo. Meu outro motivo é você. Eu não consigo gostar da Rafaela tanto quanto eu gostava de ti. Tanto quanto eu ainda gosto. E não sei se vou conseguir gostar. Quero dizer, tá demorando bem mais do que o normal. Não deveria demorar tanto, nós combinamos de uma forma incomum, ela é praticamente eu versão com peitos; e ela gosta de mim, de verdade. Mas eu só não consigo gostar de volta, não sei dizer porque. E é isso.

Silêncio. Silêncio. Silêncio.

― Eu não gosto do Gabriel.

Adnduj jsdjfhsd skfjlksflk sdjkfjkfh jklsndjkQUÊ.

― Pera. Então por que tá com ele?
― Porque ele é... bonitinho. E só. Eu não gosto dele, não de verdade. Eu já tô toda preocupada porque eu quero terminar com ele mas ele já até mudou o "relacionamento" do Orkut.
― Vai fazer o quê, então?
― Eu não sei. Acho que só sumir da vida dele, como eu sempre fiz. Não sou boa em terminar relacionamentos.

Nesse momento, eu não sei se estava mais surpreso, confuso ou com vontade de pular dançando, colocar a minha cara lá no vidro da sorveteria bem do lado do Gabriel, fazer a careta mais bizarra que eu conseguir fazer e gritar "CHUUUUUPA". Ok, eu tava mais era com vontade mesmo.

Terminamos aquela conversa com ela dizendo "eu te amo", eu respondendo "também te amo, pra semp" e tropeçando em um poste atrás de mim, como já era costume.

Ok, agora eu só tinha que terminar com a minha garota.

E é aí então que eu me torno um Agente do já citado Ciclo de Gary-Jules.

Mas, afinal, o que caralhos é o Ciclo de Gary-Jules?

O Ciclo de Gary-Jules tem feito vítimas desde a época em que Deus virou para o Homem e pegou uma das costelas dele pra dar uma de palhaço que faz poodle de balão em festa de criança e criar, assim, a Mulher. Todo mundo já foi vítima do CGJ. VOCÊ já foi vítima do CGJ - e, se não foi, pode ter certeza que será. Basicamente, existem dois tipos de indivíduos no CGJ: a Vítima e o Agente. Vamos exemplificar melhor no esquema abaixo:


Tudo começa com um Cara Legal (1). Um cara ingênuo, romântico, que passou bem mais tempo do que deveria na frente da televisão quando moleque e cresceu acreditando no amor verdadeiro; que, em algum lugar lá fora, no Além-Porta da Frente da Casa da Mãe, existe uma pessoa que foi feita só para ele, sua outra metade, e que somente com ela, ele seria perfeitamente completo.


Hummm, lembrei de Double Dragon.

Eventualmente, esse cara legal conhece uma... bem, na falta de termo melhor, uma Garota FDP (2). Ele se apaixona. Eles se relacionam, e o mundo de repente ganha mais cores e todo dia para ele agora é um musical. Ninguém NO MUNDO jamais amou tanto quanto ele está amando agora, disso ele tem certeza. O tempo passa, ele vai se apaixonando cada vez mais e mais, até que... eles terminam, óbvio. Provavelmente, ela termina com ele. O Cara Legal se torna uma Vítima, então ele fica todos aquelas semanas e meses em depressão, passa por aquele inferno todo, as 5 fases de superação e tudo mais. Até o dia em que ele se dá conta que a única coisa a fazer agora para distrair a mente é se afogar em vagabundas, e resolve passar a piroca em toda e qualquer e cada vadia que cruzar seu caminho na rua. E ele vai passando por essa fase rock n' roll, até o dia em que acaba encontrando uma Garota Legal (3). Eles têm um relacionamento. Ela é diferente. Ela gosta dele, de verdade. E ele gosta dela. Mas não... tanto quanto. Com o passar do tempo ele vai se dando conta de que, no fundo, ele ainda gosta da Garota FDP, e que aquele tempo que se passara desde então acabou moldando ele, transformando-o, gradativamente, em um... Cara FDP (4). Agora o Cara Legal é um Agente do Ciclo, e, mesmo sem querer, ele machuca a Garota Legal; a Garota Legal, por sua vez, passa pelo mesmo inferno pelo qual ele passou, até o dia em que se transforma em uma Garota FDP e conhece um Cara Legal, o qual ela eventualmente acabará machucando e recomeçando o ciclo, de novo e de novo e de novo e de novo (5, 6, 7...).

Claro, existem exceções. Existem pessoas que NASCERAM Agentes e continuam sendo assim sem motivo algum, assim como aquelas que nasceram Vítimas e vão morrer sendo vítimas. Estas, nós chamamos de "babacas apaixonados sem amor-próprio". As outras, nós chamamos de "filhos da puta" mesmo.

Fui na casa da Rafaela, conversamos e terminamos. Okay. Então, um dia, Liz me liga e me chama para ir até a casa dela contar como fora minha conversa com a menina. Num surto repentino de coragem e adrenalina, pus a camisa que ela tinha me dado de Dia dos Namorados por baixo de uma camisa social vermelha abotoada, peguei dois ônibus e fui à casa dela.

Cheguei na rua dela, encontrei a casa.

Subi as escadas e andei cautelosamente até o trampolim.

Apertei a campainha.

― Oi, Luke. Entra.

Sentamos, contei toda a história de como tinha sido o término e perguntei do Gabriel. Ela disse que da última vez que encontrou com ele, não ficaram, então ele deve ter entendido o recado. Ficamos mais um bom tempo inteira conversando, até que chegou minha hora de ir embora.

Então eu respirei fundo.

― Liz, olha, só mais uma coisa. Esse tempo que eu passei com a Rafaela me fez perceber duas coisas. Primeiro, de quem eu gosto de verdade é de ti; e, segundo, eu quero voltar contigo. E eu quero uma resposta. Não precisa ser agora, não precisa ser hoje. Mas eu queria que você penssasse sobre isso.

Pulei.

― Tá. Tá, eu vou pensar.

Por 3 semanas, ela pensou. E eu procurei me afastar pra não parecer que tava pressionando nem nada do tipo. E, nesse meio tempo, eu também pensei a respeito, e acabei chegando à conclusão de que havia me precipitado tendo ido até a casa dela e dito aquelas coisas. Terminamos por causa do vestibular, e ele ainda não tinha passado. Ainda não era hora. Nós poderíamos até voltar naquele momento, mas se quiséssemos voltar e DURAR, o melhor seria esperar mais um pouco.

Três semanas se passaram. Rafaela não apareceu mais no cursinho desde então, e eu não sabia com que cara ir visitá-la depois daquele dia - principalmente depois de me dar conta que "aquele dia" era VÉSPERA DO ANIVERSÁRIO DELA. É... é, eu sei.

― Não aguento mais aula. Cê é o único motivo que me faz ainda vir pra cá, sabia? ― ela disse uma vez, quando ainda estávamos juntos.

É, É, EU SEI. PODEM PARAR DE ME XINGAR AGORA.

Então, três semanas depois, quando a Liz me chamou para conversar mais uma vez lá no nosso canto perto da sorveteria, eu descubro que ela também pensava as mesmas coisas que eu.

― Eu acho que voltar agora não seria uma boa ideia. Não agora, pelo menos ― ela disse. ― És muito infantil... e eu também sou infantil. Nós somos muito novos ainda, nós dois.

Concordei, disse que já tinha pensado o mesmo nos últimos dias e que estava completamente OK com aquilo. Conversamos mais um pouco por um certo tempo, então a conversa acabou e fomos para a sorveteria. Eu entrei com o Pedroca, ela ficou do lado de fora com a Lulu.

Algum tempo depois, ela me chama mais uma vez para conversar.

― Eu quero que saibas isto da minha boca. Acho que é melhor do que por outra pessoa, então... Luke, eu tô namorando.

Enfie seu braço goela abaixo, agarre seu coração, arranque ele de lá pela boca e esmague-o com as mãos até ele explodir. Dói bem menos.

― Sério? Uau. Desde... quando?
― Desde hoje.
― Puxa. Com quem?
― Gabriel. Nós nos encontramos hoje, e nos acertamos.

Não conseguia falar. E não era por falta de palavras, porque eu tinha umas bem boas e cabeludas pipocando na cabeça, mas optei por ficar em silêncio. Naquele momento, eu só queria sair dali.

Por um momento, nenhum dos dois mais sabia o que dizer.

Me levantei. A fúria em meus olhos ardia feito chamas. Em um movimento rápido, puxei Liz pelos cabelos e acertei seu estômago com meu joelho, atirando-a para o outro lado da rua. Após o choque com um prédio que deixou uma cratera no concreto, Liz voltou voando para a minha calçada e acertou minha cabeça com seu braço metálico. Depois, ela arrancou um poste que estava ali perto e bateu com ele em mim, me arremessando contra um carro. Levantei ele com as mãos, pulei para o telhado da sorveteria e o joguei em cima dela. Com dificuldade, ela sai de debaixo dele.

― ACABOU, LIZ. EU ESTOU EM TERRENO MAIS ALTO.
― VOCÊ SUBESTIMA MEUS PODERES.
― Não tente...

Ok, mentira. Era só pra deixar o post mais emocionante mesmo.

― Eu vou ligar logo pra Lulu vir aqui ― ela disse, pegando o celular após todo aquele silêncio.

Lulu chegou e eu tentei agir o mais natural possível. Abracei as duas, me despedi e voltei para o cursinho para assistir mais uma aula.

Tive um sonho naquela noite. Lá estava eu, numa sorveteria com meus amigos, quando de repente aparece o rosto do Gabriel contra a parede de vidro com a cara mais bizarra do mundo dizendo "CHUUUUUUUUUUUUUUPA".

EPÍLOGO

Lulu vem até mim e comenta.

― Uh, a Liz veio falar pra mim que tava lendo o ¿Que Diabos? outro dia e viu os posts que tu fez sobre vocês. Mandaste o link pra ela?
WUT

Hã... err... hum.


Oi, Liz?
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