Domingo, Novembro 15, 2009

These days

Parte I: Love will tear us apart
Parte II: From safety to where...?
Parte III: A means to an end
Parte IV: These days
Final: Atmosphere

Então, Odie e eu começamos a sair para beber, e é neste post que eu, enfim, começo a narrar o que aconteceu de fato durante esse tempo que eu passei longe da Internerd.

Mas primeiro, um pouco mais sobre Odie.

Odie é uma figura única. Foi ele quem me ensinou a importância de andar sempre com uma camisa extra, perfume e menta dentro da mochila sempre que for beber café, além de saber diferenciar mulher de namorar x mulher de comer, como conseguir grana para ir beber fazendo coleta pública na rua (“oi, por gentileza, eu e meu irmão aqui precisamos chegar na casa da nossa tia no lugar X mas faltam 2 reais pra completar nossa passagem, o senhor/a senhora tem como dar uma força? 1 real já ajuda”) e realizar o meu Bar Mitzvah, o Ritual de Passagem das Chaves – um chaveiro com as chaves de todas as glossotecas do colégio que ele roubara há alguns anos atrás do zelador da escola quando procurava por lugares onde poderia comer suas cocotas sem ser incomodado. Enfim, Odie é ao mesmo tempo meu irmão mais velho e mentor, e só nessa época já tivemos um monte de histórias juntos.

Tipo a vez em que fomos para o Artecafé junto com o primo dele, Tomi. Na entrada, um gorila de terno e gravata pegava as identidades.

― Entra por último – Odie sussurrou pra mim.
― KD IDENTIDADE? PODE PASSAR. KD IDENTIDADE? PODE PASSAR. KD IDENTIDADE?
― putz sab o qfoi meu ― fazendo cara de sonso tateando os bolsos em busca de uma identidade inexistente. ― Ô, ODIÊ! Eu não deixei minha carteira contigo não, cara?
― Opa, ‘xeu ver. Ah, tá aqui, toma. Serve meia-passagem?

Por uma feliz coincidência, Odie era a minha cara na foto 3x4 da meia-passagem dele. E por outra coincidência ainda mais incrível, o porteiro era aparentemente um péssimo fisiologista.

― Pode passar.

Nesse dia, bebemos tanto café que acordamos os três num banco da Praça da República na manhã seguinte, além de termos pego dois ônibus só pra dormir e ir até OUTRA CIDADE só pra tirar água do joelho e então voltar para Belém, onde tomamos banho de pia no banheiro de um supermercado pra tirar o cheiro de cafeína e comemos menta de café-da-manhã. Também nessa época eu pegava uma ninfomaníaca maluca, enquanto que a Liz começou a ficar com um cara de nome de país do Oriente Médio – o que me fez começar a ficar DOIDO durante todas as aulas de Geografia em que ouvia coisas do tipo "Israel venceu a guerra" ou "Israel pegou na marra o território que antes pertencia aos palestinos".

Pobres palestinos. Eu sei muito bem como vocês se sentem.

Enquanto isso, eu e Liz estávamos em uma espécie de Guerra Fria: não haviam conflitos diretos, nenhum confronto declarado. Mesmo assim, existia toda aquela clara tensão carregando o ar, e todos ao redor só podiam sentar e observar enquanto esperavam até que a primeira bomba finalmente explodisse. Mas ninguém falava nada, nem quem estava de fora, nem os dois que estavam dentro. Até porque o primeiro que demonstrasse que o término o atingiu de alguma forma, seja ela qual fosse, já estaria oficialmente declarando derrota – e isso era uma coisa que nenhum dos dois egos poderia permitir.

― Detalhe que eu consigo levar tudo numa boa, e se tu ficares estranho eu vou convencer todo mundo a parar de falar contigo – ela disse, no dia em que terminamos, brincando (eu acho).

Você pode pensar antes de falar. Você pode mentir. Você pode vigiar seus gestos, controlar seu comportamento, censurar suas ações. Mas, às vezes, um único olhar pode entregar tudo o que você está realmente pensando ou sentindo – não é à toa que caras de óculos escuros são tão legais, heh. Eu podia fingir o quanto quisesse que estava ótimo e que aquele término já não significava nada pra mim, mas, porra, meu olhar não enganava ninguém. E isso é um problema quando todo o resto do mundo pode saber que você está sofrendo MENOS ELA. É uma questão de honra e bolas, até.

E, pra completar, Liz parecia fazer questão de me deixar a par de todos os seus progressos.

― Escreveram uma música pra mim.

E EU ROUBEI UM CONE, MOTHERFUCKER FDP

― Puxa. Que legal. Quem?
― Gabriel.
― Quem diabos é Gabriel?
― My new boy.
― Não era o Irã até outro dia?
― Outro dia; outro dia era TU, pô.

Ooooook. Ponto pra ela.

Vale citar aqui também que Liz não sabe lidar com relacionamentos. Não os sérios, pelo menos. Ela sempre acaba pegando a primeira via para fora do namoro logo no primeiro ou segundo mês, no máximo. Então eu ter conseguido segurar a garota por inacreditáveis-quase-três meses pode é um feito e tanto, além de um recorde pessoal, tanto dela quanto meu também.

Certa vez, Pedroca queria terminar com a namorada, só que não fazia idéia de como. Então Liz fez um top 10 formas de terminar com alguém em uma folha de papel e mostrou para o grupo. Todo mundo gostando, todo mundo rindo, até que eu disse:

- Incrível. Não satisfeita em terminar os próprios relacionamentos, agora também termina os DOS OUTROS.

Eu sempre achei que, se um dia terminássemos, estaríamos acima dessas pontadas maldosas rasteiras de ex-namorados. Mas que foi bem gostoso deixar ela sem responder, ahh, foi.

A essa altura, eu já estava fazendo cursinho à noite junto com Odie, Lulu, Pedroca e... ela. Ou seja, via a Liz toda manhã e toda noite. Ou seja, tinha armado tudo pra me foder. MAS, se não fosse por isso, eu não teria, um belo dia, sentado ao lado de uma garota de franja e lápis de olho que usava uma certa camisa do Pink Floyd.

― Oi, licença, você copiou a matéria que o professor passou no quadro na aula passada? – perguntei.
― Aham.
― Pode me emprestar?
― Claro. Aqui.
― ‘Brigado. Ah, qual seu nome?
― Rafaela.

Algumas horas depois e já conversávamos sobre AC/DC e Led Zeppelin.
Alguns dias depois e já sentávamos lado a lado.
Algumas semanas depois e eu já chamava a mãe dela de avó.

Rafaela era... perfeita. Pelo menos pra mim. Tínhamos os mesmos gostos, idéias e opiniões. Ouvíamos as mesmas bandas, víamos os mesmos filmes e líamos os mesmos quadrinhos. Ela ainda desenhava e escrevia, além de ter o mesmo humor babaca que eu. Resumindo, uma she-luke.

Não demorou para que ela caísse nas graças do resto do grupo, e logo íamos matar aula na sorveteria perto do cursinho: eu, ela, Odie, Lulu e Pedroca, enquanto que a Liz continuava no cursinho.

― Vais ficar MESMO com a Rafaela? – perguntou Lulu.
― É, tô pretendendo, né.
― Ah, então, olha... se tu ficar mesmo com ela, não deixa a Liz ficar sabendo.
― Não deixar a Liz ficar sabendo? Pera, ela não pareceu fazer lá muita questão de esconder de mim quando tava ficando com os TRÊS MIL QUATROCENTOS E OITENTA E NOVE caras lá.

Ahh, as hipérboles.

― É, eu sei, é que tipo... eu tava conversando com ela, e ela me disse que se você ficasse com a Rafaela, vocês não voltariam nunca mais.

WHAT. THE. FUCK.

CERTO, vamos deixar a rage um pouco de lado e analisar os fatos friamente. Nós terminamos por causa do vestibular, OK; ela começou a ficar com um cara, O. K.; eu vou começar a ficar com uma garota, NOT OK? SÉRIO, O QUE VOCÊS, GAROTAS, TÊM NA CABEÇA? NÃO, SÉRIO, EU GOSTARIA REALMENTE DE ENTENDER, SUAS MALUCAS SOCIOPATAS PSICÓTICAS.

Então, eu estava assim: de um lado, Liz, representando tudo o que eu tive no passado e PODERIA voltar a ter no futuro, sendo que as chances eram totalmente incertas; de outro, Rafaela, tudo o que eu poderia vir a ter de bom no futuro e esquecer completamente o passado. Passado ou futuro? Certo ou incerto?

― E aí, o que tu vai fazer, brother? ― Odie perguntou.
― Cara, assim. Eu sei que não volto mais com a Liz, com Rafaela ou sem Rafaela. Não vou esperar todo esse tempo por algo que eu sei que não vai acontecer. Mas eu também não vou ficar com a Rafaela, porque eu não acho certo. Mesmo a Liz não dando a mínima e ficando com o maluco lá, eu continuo não achando certo. É aquele negócio, dois erros não fazem um acerto. Então, se você quiser, pode ficar com a Rafaela.
― Parabéns, bicho. Essa foi uma decisão madura, toque lá ― high five de brothers. ― Já até tenho um plano de como chegar nela. Mas então, vamo tomar uma?

Algum tempo depois, Rafaela tinha machucado a perna e, como não podia ir para o cursinho, fui entregar as fichas que ela tinha perdido. As coisas com a Rafaela eram diferentes. A conversa... fluía. Eu me sentia realmente à vontade com ela, não ficava nervoso nem me cagando de medo de dar mancadas imbecis. Na verdade, era como conversar comigo mesmo, então eu agia como se fosse eu mesmo. Me despedi dela e fui voltando pro cursinho. Quando cheguei na esquina, percebi o quanto estava sendo idiota e voltei correndo.

― RAFAELA RAFAELA RAFAELA
― oi, -q
― Hã... hã... ééé... hum... ahhh... eu...

― Eu acho que to gostando de ti.

Já ouvi isso antes, ein.

― Ahahahaha, desculpa. Eu nunca sei lidar com uma situação dessas. É sério isso?
― ... isso depende. Vejam bem, se você achar isso... bom, de alguma forma, então é bem verdade. Mas se não, então esquece, é brinks.

Mas que merda que eu tava falando, cara.

― Ahahahaha, gostei disso. Então é verdade.

Beijo.

― Cara, a boca da Rafaela é muito macia.
― Quê? Vocês ficaram?! – Odie, surpreso.
― Aham. Acabei de voltar da casa dela e... bom, aconteceu.
― Hum. Bicho, tu sabe que não volta nunca mais com a Liz agora, né?
― Ela não precisa saber.

Mas soube. E, sinceramente, eu nem ligava mais. Rafaela conseguia ser fofa e carinhosa de uma forma que eu já nem lembrava mais quem era Liz. E eu não estava com ela apenas para usá-la como uma forma de chamar a atenção da minha ex e dizer “ei, olha como eu estou bem também”. Eu realmente gostava da Rafaela, mas, por algum motivo, a ideia de algo mais sério não era mais tão apetitosa para mim – acho que pela primeira vez na minha vida.

Como, pela primeira vez em um bom tempo, tudo estava ótimo pra mim e caminhando para ficar cada vez melhor, decidi me reaproximar da Liz, acabar com toda aquela tensão que pairava sobre nós dois e voltar, de fato, a sermos o que éramos antes de toda essa papagaiada começar. Antes de término, antes de namoro, antes de cone, antes de "tenho que te contar uns papos aê", antes de tudo. Cheguei no cursinho decidido e obstinado a consertar as coisas entre nós dois. É quando ela chega de mãos dadas com um aleatório e diz:

― Luke, Gabriel. Gabriel, Luke.
― Ahh, então você é o famoso Skywalker?

Um fato curioso sobre conhecer o atual da sua ex é que, todo defeito que ele possua, por menor e mais comum que seja, você SEMPRE vai ver ele como se fosse dez vezes pior do que realmente é. Gabriel, por exemplo, provavelmente era um rapaz levemente abobalhado.

Pra mim, no entanto, ele tinha um retardo mental.

― AAAHHH ENTAO VOSE EH O FAMOSO SKAYULSJFSFKDD DEEERP DUUUUURRRR DEEERP JHDJWAULKE
― ... Lucas. Prazer.

Durante todo aquele tempo, eu sempre tive todo o cuidado do mundo de nunca ficar com outra pessoa na frente da Liz por respeito pelo que tivemos um dia. Imaginem a minha frustração quando dei conta de que ela não tinha aquela mesma preocupação para comigo e ficou com o Gabriel na minha frente no mesmo dia.

Foi nesse momento que eu descobri que todas aquelas regras de escoteiro e obrigações de manual de etiqueta pós-termino que eu tinha passado todo aquele tempo inventando e seguindo fielmente só existiam na minha cabeça perturbada, e que, na verdade, ninguém dá a mínima pra isso. Foi nesse momento que eu liguei o botão de “foda-se” e decidi pegar minha cocota independente de ex ou não.

Um dia, a caminho de casa, estávamos eu, Rafaela e Odie. Então a voz dele dizendo "bicho, tu sabe que não volta nunca mais com a Liz agora, né?" ressoou na minha cabeça. Virei para ele e perguntei.

― Nunca mais?

Odie, após uma troca de olhares comigo, percebeu ao que me referia.

― Nunca mais.

Olhei para a garota perfeita-para-mim ao meu lado. Olhei para a mão dela entrelaçada com a minha. Olhei de volta para Odie.

― You know, I'm okay with this.

FIM DA PARTE IV - pera que tá acabando. :D
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