Meu final de infância foi repleto de decepções. Quando eu era moleque, sempre dedicava bem mais tempo na frente de uma TV do que o saudável, deixando que todos aqueles programas de desenhos com apresentadores débilóides e comerciais de guloseimas açucaradas estuprassem a minha mente infantil. Eu VEGETAVA na frente da televisão, essa é a verdade. Como um nabo.
E essas eram as minha maiores preocupações da vida, na época: acordar nos sábados de manhã antes que os desenhos acabassem e ver se a quantidade de Nescau e leite gelado na geladeira eram suficientes pra minha maratona matinal. Mané espinhas, garotas, física e matemática que nada. Aquilo sim era vida, rapaz.
Então os desenhos acabavam (dando lugar ao jornal local do meio-dia; eu ODEIO jornal local do meio-dia) e eu voltava a ser o garoto hiperativo normal de sempre. Quer dizer, “normal” entre aspas, porque eu sempre fui uma criança meio retardada, do tipo que precisa de avisos de "CRIANÇAS, NÃO TENTEM ISSO EM CASA" nos filmes pra não, de fato, fazê-lo. Aliás, caralhos, eu sou assim até hoje. Lembro de uma vez que recortei um papelão verde, coloquei na cara e saí girando pela casa, até que o armário da sala parou minha imitação d'O Máskara de maneira dramática e beeem dolorosa. Sssmoking.

É, eu já fiz isso também.
Daí um dia eu arranjei um aquário. Pus dois dedos de água, um punhado de terra com uma parte fora d’água e, sobre ela, formigas. Isso mesmo, FORMIGAS. Quando as formigas colocassem seus ovinhos, eu encheria mais e mais até cobrir tudo. Eventualmente, os ovos submersos iriam se chocar, e então eu teria, tcharam, um EXÉRCITO DE FORMIGAS AQUÁTICAS MUTANTES. Então eu revelaria minha recém-criada nova espécie para os cientistas, ficaria famoso e as venderia por não menos de US$ 1.000. Cacete, era tão perfeito... na teoria. Lembro com tristeza até hoje de todos os momentos que eu passei fitando ansiosamente o aquário, esperando as miseráveis colocar os ovos. Quando eu vi os corpinhos mortos de todas elas boiando na água indo pela pia, então, eu quase chorei. Mais um experimento científico que não deu certo indo pelo ralo, literalmente.
Mas essa foi só a primeira grande decepção da minha vida. Depois disso, a coisa só ficou pior. Por exemplo, em quase todos os filmes e desenhos animados que eu via com toda aquela devoção quase religiosa, o heroizinho tinha um amigo invisível. E não só era o melhor amigo dele, como também o único que o entendia (até porque é ele mesmo lOlolol oLoLooLo Lol). Influenciável pracaralho como eu sou, lá ia eu criar meu próprio amigo imaginário. Dava um nome, olhava pra um cantinho, cumprimentava. O problema é que eu simplesmente NÃO TINHA ASSUNTO. Esse deve ser tipo o cúmulo da instrospecção social, não conseguir levar um papo adiante NEM CONSIGO MESMO. Eu também evitava falar com meu amiguinho invisível na frente de alguém, porque eu MORRIA de medo de levarem pro psicólogo e ele mandar me internarem ou algo do tipo. Eu também ficava completamente frustrado por meu amigo invisível não ser tão... visível como nos filmes. Sempre achava que a culpa era minha, por ser burro e não ter imaginação. Então dez minutos depois eu dava uma de Ronald Rios e esquecia da minha criação e ia fazer outra coisa, tipo ver MAIS televisão. Duas semanas depois eu tentava criar outro, falhava e ficava frustrado de novo. Eu era um bosta, pqp.

Bobby, PFF.
Cresci mais um pouco e mais uma decepção: radioatividade não faz de você um super-herói. Se você misturar uma colher de partículas beta no seu cereal matinal, você não vai ter flocos de milho crocantes mutantes correndo pela sua casa, assim como se tomar banho de raios gama, tudo o que vai conseguir é um câncer do tamanho de uma bola de vôlei, no mínimo. Mais uma vez, a Realidade vem pra me dar um tapa de piroca na cara, matar meu rebanho, estuprar minha família e beber todo o leite da geladeira direto na boca da garrafa.
E então eu aprendi sobre o sexo (com os amigos da rua, claro, junto com alguns palavrões bem cabeludos. Eu nunca entendi aonde minha mãe queria chegar com aquele lance de passarinhos e sementinhas que viram bebês). No começo, eu achei tudo bastante normal, encarei o lance todo naturalmente, e até achei bem interessante (lembrem-se, eu era um moleque safado), porque eu sempre soube que aquela história de ser entregue nas casas por cegonhas era imbecil DEMAIS pra ser verdade ("então eu sou uma entrega do correio... certo..."). O problema mesmo foi quando eu, em um lapso de sagacidade, finalmente correlacionei o sexo com o modo como os meus pais me fizeram.
Ah, merda.
Que nojo.
Mais uma decepção, mas eu segui adiante. Posteriormente, tudo o que eu imaginava sobre o sexo foi jogado pela janela quando descobri que os espermatozóides não são do tamanho de girinos e que a genitália feminina não era um triângulo cabeludo invertido um pouco abaixo do umbigo, o buraco era mais embaixo (obrigado, revistas Playboy da década de 90). Sem falar que 90% dos palavrões que eu proferia tão orgulhosamente junto com meus amigos quando não tinham adultos por perto tinham significado sexual. Porra, isso explicava muita coisa.
Depois disso, minha infância acabou - e não foi com a descoberta da inexistência de Papai Noel, isso já é brega. Você simplesmente não tem mais como voltar atrás e ser uma criança ingênua novamente depois que fica sabendo como você foi feito, que tartarugas não podem ser mutantes muito menos ninja e que você só tem amigos imaginários se também tiver algum nível de esquizofrenia.
Agora, que só o fato de estar na faculdade já te garante sexo rasgado, suado e diário com todas suas amiguinhas de turma, ISSO NINGUÉM ME TIRA DA CABEÇA OK.
Por favor. :(








